terça-feira, 8 de setembro de 2026

A vida imitando a arte, ou não!

 

Fonte imagem: https://portalrm.com.br

Há algo de poeticamente perverso e ilusório na forma como obras públicas conseguem existir apenas no plano da inutilidade prática. O cemitério de Sucupira, aquele da minissérie televisiva consagrou-se como um monumento à morte que nunca chegou, ergueu-se como um símbolo daquilo que foi feito para cumprir tabela – um espaço solene, vazio não por descaso, mas por absoluta falta de cumprimento de finalidade. Afinal, ninguém morreu. E que inconveniência tremenda para quem precisava justificar a grandiosa obra com suntuosos discursos.

Em Cocal City a história se repete com requintes de ironia administrativa: casas destinadas aos alagados que jamais conheceram um morador sequer. Não por atraso, não por falha técnica, mas porque o inverno, esse sabotador climático oportunista, resolveu não colaborar com a tragédia. Sem enchente, sem desespero, sem lama até o joelho, restaram apenas paredes erguidas para um sofrimento que não veio. Uma politica publica dependente da desgraça alheia acabou traída pela ausência dela.

No fim das contas, tanto o cemitério da fictícia Sucupira quanto as casas compartilham o mesmo destino: são monumentos ao planejamento invertido, onde a logica é torcer pelo pior para justificar o gasto. Se por lá faltaram mortos, por cá, faltaram alagados/flagelados. E assim seguimos, com obras que dariam certo – se a realidade tivesse a gentileza de fracassar.

E tenho dito!

domingo, 2 de novembro de 2025

Ad aeternum ele, o trânsito caótico

 

Imagem disponível em https://www.espacovital.com.br/

Em Cocal City, o trânsito é uma mistura de circo e campo de guerra – com palhaços e soldados trocando de papel sem aviso prévio. As ruas, que deveriam ser vias de circulação, viraram território livre para manobras de toda espécie: motos subindo calçadas, carros parando no meio da rua “só um minutinho”, semáforos ignorados com a mesma naturalidade de quem ignora a previsão do tempo. A regra é simples: quem tem o veículo mais potente, passa primeiro. Salve-se quem puder.

Enquanto isso, as autoridades observam tudo com a serenidade de um iogue em contemplação, mais silenciosos que o carro do lixo. Os agentes, sob diretrizes, quando aparecem, parecem figurantes de novela - estão ali apenas para compor o cenário. As leis de trânsito em Cocal City, são como as placas de “proibido estacionar”: decorativas, simbólicas, quase folclóricas, salvas pela oportunidade ímpar de organizar o trânsito nos festejos. A fiscalização é tão rara que já virou lenda urbana: dizem que certa vez um motorista foi multado, mas ninguém sabe ao certo se foi verdade.

E os diligentes escolhidos, sempre atentos à aritmética eleitoral, preferem o caos à coragem. Proibir, punir ou educar dá trabalho e pior, tira voto. Em Cocal City paece qu o voto do infrator vale mais do que a vida dos cidadãos. Assim, o desrespeito vai sendo tratado como manifestação cultural, igual aos urubus domesticados pelas ruas, e a barbárie cotidiana ganha status de normalidade – um retrato perfeito de uma cidade que desaprendeu o que é civilização.

E tenho dito!

quinta-feira, 25 de setembro de 2025

A Micareta e o camarote, o cercadinho da alegria nem tão pública assim

Fonte: memeandoelpensador/Facebook

Nada mais brasileiro do que financiar com dinheiro do povo uma festa “pública” que, curiosa, mas não surpreendentemente, não é para o povo inteiro. Eis a micareta: paga pelo erário e vendida como celebração popular, mas com seus abadás e equipada com camarotes reluzentes e que funcionam como passaporte para o “andar de cima”, o olimpo do alpinismo social neste território bendito e ordeiro.

Porque festa, caríssimos deslumbrados, não pode ser bagunça democrática. Tem que ter hierarquia! O camarote é o cercadinho VIP: lá dentro, ar-condicionado, open bar, banheiro limpo e a tranquilidade de não ter que esbarrar no povão suado que, ironicamente, também bancou a festa. Afinal, o que seria da alegria se não fosse possível separar a elite do resto da plebe? E o que dizer das selfies nos camarotes para as redes sociais, mostrando e demonstrando a exclusividade e chiqueza “no último” dos escolhidos e bem-nascidos?

O abadá, por sua vez, é a farda colorida do gado bem-comportado. Ele marca no peito quem se diferencia, embora no meio da multidão. É o bilhete premiado que transforma uma festa coletiva em condomínio fechado de diversão. E ainda será a farda na academia, lembrança de momentos épicos.

E o povo? Esse, que se vire nos espaços restantes. O lugar dele é na arquibancada da vida real, pagando a cerveja quente, três vezes mais cara, mordiscando aquela carne ressequida. Tudo enquanto observa lá no alto os “cidadãos especiais”, desfrutando de um espetáculo que só existe porque a massa anônima, essa mesma da rua, financiou o palco, o trio e até o som que atormenta.

No fim, a micareta é pública, mas a diversão é privada. Um laboratório perfeito da democracia tropical: todos pagam, alguns se divertem. Como no refrão que nunca falha, a festa segue no melhor estilo “vida de gado” – marcada, separada e conduzida.

Ah, e antes que o mundo acabe, esqueça o caos no trânsito que há semanas incomoda aos que não se dispõem a compor a claque. São efeitos colaterais, o que vale é a alegria do… povo?

E tenho dito!

segunda-feira, 13 de maio de 2024

A cidade sem pedestres

                                                                          Imagem: Arquivo pessoal.


Eis que a cidade futurística é tão prafrentex que já excluiu de suas ruas os indesejáveis pedestres. Iniciando na ponte sem espaço lateral, espalhando pelas vias estreitas e prosseguindo pelos expositores de mercadorias e estacionamento de motos, que os antigos chamavam de calçadas.

Calçadas estreitas, abarrotadas de mercadorias, motos, lama, buracos e outras bobagens são o cotidiano enfrentado pelos arcaicos cidadãos que ainda ousam aventurar caminhar pelas ruas da cidade. Que ousadia, tentar invadir as calçadas caminhando, tentando ocupar os espaços destinados às motos e placas de propaganda! Um acinte!

Ah, e o que dizer dos incautos que se aventuram na principal via da cidade, aquela que quando não está alagada, está esburacada. Sobre as calçadas: lama, óleo de oficinas, mato… se não tiver as pernas grandes para ultrapassar de uma só passada o aguaceiro, deve se aventurar até o meio dos quarteirões para conseguir passagem ao outro lado da via. Escapando de cair neste momento é quase certo que deslizará no lamaçal em que se converteram as sarjetas. Se resolver aventurar caminhando nas vias pavimentadas não demora e entrará nas estatísticas de acolhidos em estabelecimentos de saúde, colhido provavelmente por um dos tresloucados em seus bólidos veículos.

Certos estão aqueles que deixam as coisas com estão e se esbaldam no ar-condicionado, que se danem os questionadores. É mais cômodo deixar as publicidades invadir as vias. Onde já se viu, perder tempo com este tipo de gente que… caminha pelas ruas. Caminhar somente é permitido como atividade física na beira do rio, para atualizar as fofocas do dia e exibir o look comprado em 12 prestações.

No meio do caminho tinha uma moto, tinha uma moto no meio do caminho.

E tenho dito!

quarta-feira, 10 de abril de 2024

"Tudo como dantes no quartel de Abrantes"

Imagem: Disponível em redes sociais.


Após meses sem postar, resolvi aparecer. Como de praxe, não tenho elogios, deixo-os aos aspones. Me atenho a fatos que a – cof-cof – imprensa local “esquece”, entretidos que estão em merecer suas 30 moedas de prata. Seus tilintares não me agradam. Mas, pelo menos... Eu vou tomar um tacacá...

Ao fato: após anos de promessas, mandatos findos (felizmente) e outros em curso, o principal problema da cidade reapareceu a toda carga: a avenida/rio, formada em pleno centro da cidade. Palco de memoráveis festividades, outras nem tanto, a avenida Petrônio Portela sofre de mal crônico, a falta de zelo. Da população, que a utiliza como pista de corrida, depósito de lixo, estacionamento e também das sucessivas gestões, que vingam prometendo as galerias. Sim, as gloriosas e inatingíveis galerias.

Na data de hoje, memorável 10 de abril, chuva torrencial diluviana atormentou a vida de grande parte da cidade, daqueles que habitam a planície. A chuva torrencial em questão de minutos inundou casas, comércios e o que mais havia em seu curso. Perdas materiais, aborrecimentos, sujeira nas residencias e outros males. Tudo isso parece cena de décadas passadas, mas se repetiu hoje, reativando memórias de promessas não cumpridas. Mas, pelo menos... Eu vou tomar um tacacá...

Temos um cenário de servilismo que se repete pelas ruas e ecoa em locais que na prática, deveriam representar interesses outros, que não os seus. O desejo de agradar é maior que o de servir. Parte da população assiste boquiaberta aos fatos, se reclamam e compartilham iras nas redes sociais e depois... calam miseravelmente, subjugadas por promessas de obras paradisíacas e inatingíveis, mesmo desnecessárias, quando o básico fica relegado ao ostracismo. Mas, pelo menos... Eu vou tomar um tacacá...

Não há mais espaço para tantos “parabéns”, “congratulações”, “a cidade agora é outra”. Chega de palavras ocas. Estas o vento leva. Ação, senhores. Chega de se apequenar em troca de espólios. Criem coragem! Basta! Tudo tem limites e a submissão rasteira, o ato de engolir sapos não deveria ser vossas realidades. Honrem a confiança que lhes foi depositada. Toda ela foi na esperança de que fariam algo melhor que o que tinhamos no passado. A cidade não necessita de pinguins de geladeira, que apenas sugam o erário.


O trecho do hino “Território bendito e ordeiro,
[...]
De homens nobres de povo altaneiro,
De Mulheres formosas, gentis[...] faz menção a pessoas boas, não tolas (espero).

O que já foi realizado pensando em resolver a questão das águas na avenida? Nada. Todos os esforços e recursos se alinham em festividades frívolas, em detrimento de questões primordiais, estas, relegadas ao período eleitoral, como catapulta de mandatos. Mas, pelo menos... Eu vou tomar um tacacá...

E tenho dito!

segunda-feira, 30 de outubro de 2023

Que rufem os tambores, chegou A oportunidade!

Imagem do Arquivo.


Tão esperado pelo funcionalismo municipal, foram iniciados os cadastros de inscrições e simulações de contratos com vistas à concretização do sonho da cada própria, por meio do fabuloso programa Minha Casa ou Minha Vida, versão cocais.

Celebrado como a última bolacha do pacote, cantado  em verso e prosa pelos quatro cantos (?) do mundo como a redenção do funcionalismo, após séculos de descasos e tals... eis que surge a agulha no palheiro de oportunidades para conseguir o imóvel dos sonhos.

Só esqueceram de avisar que as tais casas serão quitadas pelos netos dos ora adquirentes, pois a proposta de financiamento vislumbra infindáveis 35 anos como prazo final de pagamento dos imóveis. É possível até dar tempo de ver um mundial do Palmeiras antes de quitar. A depender da renda e idade dos proponentes à compra, as parcelas saem bem salgadas para ser honradas com seus combalidos salários, já carcomidos pelos empréstimos nossos de cada dia. Por outro lado, acredito que esta será a deixa, a oportunidade de ouro para que seja ofertado um aumento considerável de salário ao funcionalismo, visando proporcionar a estes o devido respaldo financeiro para pagar as prestações. A salvação da lavoura. Rááá, pegadinha do malandro!! Vem fazer glu, glu!

Como não posso abrir mão de um rim, fui catapultado da insólita oportunidade de ser o proprietário de um destes imóveis. Antes de aderir ao programa é preciso escolher: Minha Casa ou Minha Vida, pois os valores despendidos na compra do imóvel constituem parte substancial do mirrado orçamento da maioria dos servidores, pretensos alvos do programa. Abrir mão da excursão do final de ano, a cerveja gelada com churrasco no final de semana ou o caldo de cana com pastel do dia-a-dia parece razoável, afinal, trata-se da casa dos sonhos! Mas para quem já vislumbra como única possibilidade de mensalidade o pagamento do consórcio da morte, aquele plano funerário que dá cafezinho no funeral, a casa é só mais um sonho inalcançável.

E tenho dito!

sexta-feira, 29 de setembro de 2023

Habemus festa!

Imagem disponível em https://www.creativefabrica.com


Enfim, chega o momento de realização da esperada festa. Motivo de alegria para muitos e promessas de campanha de todos, a festa volta, mas com certo ar caquético, com toques de revival e recendendo a mofo.

Depois de décadas, está de volta a folia que promete alegria aos desamparados culturais. Hora de esquecer os problemas de ruas escuras, sem calçamento e da falta de água nos rincões da zona rural. Para além do oba-oba geral, alguns questionamentos me veem à mente, como quais motivos levam alguém em sã consciência a enfrentar horas em uma fila para trocar alimentos por uma camiseta de propagandas. Seria para se diferenciar do resto do mundo? Se a festa é popular, porque a necessidade de uniforme? Seria para usar na academia depois de tudo?

O palco da festa é o mesmo de sempre, a avenida ora fantasiada de urbanidade, que passa dias submersa no restante do ano por falta de saneamento, tornada pista de rally por incautos condutores de veículos e estacionamento para desatentos “donos do mundo” em seus bólidos.

Mas afinal, qual a finalidade disso tudo, entreter a plebe, centralizar as atenções na transformação dos espaços urbanos, demonstração de força política ou todas as alternativas? E porque às autoridades e burgos o Olimpo do camarote e à patuléia a planície rasa da rua? A quem não se vê atraído pelas atividades, músicas ruins, resta assistir a tudo resignado, vendo o caótico trânsito de mercado egípcio, a barulheira das motos enlouquecidas, entre outros aspectos não planejados.

Enfim, serão dias esquecíveis em que, se repetido público de outras edições haverá colapso na oferta de alguns produtos e serviços e finalmente uma segunda com cara de quarta-feira de cinzas.

E tenho dito!