Há algo de poeticamente perverso e ilusório na forma como obras públicas conseguem existir apenas no plano da inutilidade prática. O cemitério de Sucupira, aquele da minissérie televisiva consagrou-se como um monumento à morte que nunca chegou, ergueu-se como um símbolo daquilo que foi feito para cumprir tabela – um espaço solene, vazio não por descaso, mas por absoluta falta de cumprimento de finalidade. Afinal, ninguém morreu. E que inconveniência tremenda para quem precisava justificar a grandiosa obra com suntuosos discursos.
Em Cocal City a história se repete com requintes de ironia administrativa: casas destinadas aos alagados que jamais conheceram um morador sequer. Não por atraso, não por falha técnica, mas porque o inverno, esse sabotador climático oportunista, resolveu não colaborar com a tragédia. Sem enchente, sem desespero, sem lama até o joelho, restaram apenas paredes erguidas para um sofrimento que não veio. Uma politica publica dependente da desgraça alheia acabou traída pela ausência dela.
No fim das contas, tanto o cemitério da fictícia Sucupira quanto as casas compartilham o mesmo destino: são monumentos ao planejamento invertido, onde a logica é torcer pelo pior para justificar o gasto. Se por lá faltaram mortos, por cá, faltaram alagados/flagelados. E assim seguimos, com obras que dariam certo – se a realidade tivesse a gentileza de fracassar.
E tenho dito!





